Barão de Tautphoeus


Barão de Tautphoeus, "mestre dos metres"



José Guilherme Hermann de Tautphoeus era bávaro de Lindau , nascido em 22 de setembro de 1812 e falecido no Rio de Janeiro, a 27 de fevereiro de 1890. Foi personagem não só do nosso ensino, como da sociedade brasileira do pleno Segundo Reinado aos dias incipientes da República. Formado em Direito pela Universidade de Munique, prestou exame de madureza aos 16 anos, dedicou-se ao estudo das ciências naturais e médias e, para descansar, das línguas, autodidata a completar lições de mestres. Tautphoeus na juventude, legitimo alemão universitário do seu tempo, era destro no manejo das armas, espada, florete e pistola. Era favorável à prática de exercícios físicos pelos jovens, desenvolvendo o corpo a par da inteligência, sem que isso os impedissem de sentar nas horas certas à banca de estudos. 


 Sempre com um livro alemão de grosso volume debaixo do braço, caminhava horas inteiras no mesmo ritmo, alheio ao mundo exterior. Era um homem que sabia de tudo. Sua conversação era inesgotável. O assunto lhe era indiferente, e até o fim, anos seguidos, dia após dia, encontrava-se com interlocutores curiosos que desejavam ouvi-lo sobre os pontos que mais lhe interessavam.  O Barão de Tautphoeus era conhecido por ser muito distraído, como se vivesse dentro dele mesmo, no bastar de si, do seu saber e da sua memória. Conta que o Barão era tão conhecido que, certa vez, um condutor dos velhos bondes cariocas se recusou a receber sua passagem, por saber que tratava-se Tautphoeus. Segundo Paranhos da Silva, Tautphoeus era apreciador de charutos e “não os tirava da boca, além de usar sempre um casquete”. O ex-diretor ressalta ainda, que “verdadeira veneração tributavam-lhe os estudantes”. 

"De origem alemã, estava no Brasil há quase cinquenta anos, e nesse período, provou sempre sobejamente, tanto a bondade do seu coração, verdadeiramente patriarcal, como a ilustração sólida do seu cérebro incomparável, “”. Dominó Sobrinho (1890)

Por muitos historiadores, é tratado como um homem de hábitos muito simples, que fugia sempre das ninharias contemporâneas e de quem não havia meios de ouvir futilidades. E era assim, naturalmente, sempre de sorriso nos lábios e charuto no canto da boca. Gama Rosa o descreve, quando o conheceu na qualidade de discípulo, como um homem de pequena estatura, magro, olhos minúsculos, cheio de vivacidade, a barba aparada em colar, à maruja, o bigode cortado rente ao bordo do lábio superior, trajando singelamente vestes domésticas, usadas, sempre ornado de pequeno gorro teutônico e, invariavelmente, sentado em amplíssima poltrona, estofada, a ler ininterruptamente e a fumar infindavelmente.

Muito míope, lia os escritos junto aos olhos. A especialidade do Barão era lecionar, profusa e profundamente, qualquer matéria de humanidades, sem leitura prévia, apenas indagando o ponto em que ficara o professor substituído. De resto, possuía erudição universal, germânica enciclopédica e vasta. O Barão de Tautphoeus não foi sempre esse indivíduo tranquilo e sábio que, invariavelmente, se exibiu no Brasil. Antes de ser forçado a expatriar-se da Baviera por motivos políticos há registros de que viveu em Paris, por volta de 1830, e frequentava a plêiade liberal do Journal des Débats. Havia sido liberal exaltado na Alemanha, e, envolvido no movimento revolucionário de 1848 e na insurreição húngara de Kossuth, desembarcando no Brasil, evitando perseguições. Da Alemanha conservara o hábito de certos esportes universitários e, quando, momentaneamente, deixava a absorção de leituras sem fim, era para realizar, nos dias feriados, pasmosas excursões a pé, a arrabaldes remotos, à Gávea, à Tijuca ou às praias da Guaratiba.

Tautphoeus teve a progenitora por primeiro mestre, de quem teria recebido o saber básico. Cursou as melhores escolas do seu país, foi nelas sempre o melhor aluno. Travou a mais sólida amizade juvenil com a cultura humana. Entregaram-lhe segredos as Ciências naturais, línguas do Oriente, filosofia, matemática, como também o direito e a medicina. Não teria se albardado com diplomas, e sim transportado os méritos. Cheio de ideias liberais, em uma Alemanha considerada reacionária, teve que deixar a pátria. Viajou pelo mundo. Na ocasião da guerra pela independência da Grécia, Tautphoeus teria acompanhado o Rei Othon à Grécia e até teria oferecido sua vida nos combates. Em Marselha, Tautphoeus teria conhecido o amor, partilhou-o com Camilla Casolane Cherueb, senhora de nobre sangue árabe-italiano, nascida em 1825, em Djedda Arábica, nas margens do Mar Vermelho. O Pai de Camilla, mahometano, estudou na Itália. Nessa ocasião teria conquistado o coração de Suzanna Casolane, católica. Perseguido na terra natal, por questões de ordem religiosa, João Baptiste Cherueb emigrou, e, por influência da família da esposa, chegou a governar a ilha de Malta. A cônjuge de Tautphoeus tinha a fama de ser uma mulher bela. Foi mãe em Paris, em 1844, de uma menina, Marianna, casada, no Brasil, com o capitão Eduardo Bello de Araujo, filha que recebeu, em 1878, em uma fazenda no Estado do Espírito Santo, o último suspiro materno. Tautphoeus chegou ao Rio de Janeiro em 1842 com base em outros documentos como a seção “movimento do porto” do Jornal do Commércio, de 16 de agosto de 1842, que apresentas as seguintes informações: “entradas do dia 14. Havre, 52 dias. Barca francesa Cénie. 217 toneladas. Comandante M. Ménard, equipagem 11, carga fazendas a Dalboussiére.” Segue-se a lista dos passageiros, vinte, entre os quais “os alemães Hermann J. Tautphoeus, sua mulher, uma filha e uma criada”.

"IV- Eduardo Bello de Araujo, filho do Jose de Bello de Araujo (item I). Proprietário da Fazenda Boa Vista no lado norte do rio Itapemirim, ES. Deixou geração do seu casamento com Ana Tavares, filha do Capitão José Tavares de Brum, patriarca da família Tavares de Brum (v.s) do Espírito Santo. -v- Eduardo Bello filho de Eduardo Bello de Araujo (item IV) sendo que foi casado com uma filha do Barão de Tautphoeus."

Tautphoeus se dedicava aos seus discípulos, muitos se tornaram jornalistas, professores e ministros de Estado. Esta relação de discípulos era composta por nomes ilustres daquela época, como Ferreira Vianna, Paulíno de Souza, Manoel Francisco Corrêa, Visconde de Taunay, Joaquim Nabuco, Carlos de Laet, Teixeira Junior, Alvares de Azevedo, Silvio Romero, Ramiz Galvão, Salvador de Mendonça, Ferreira de Menezes, Bithencourt da Silva, Fagundes Varella, Rodrigo Alves, dentre outros. Deste modo, é perceptível que pelo menos duas gerações de homens notáveis nas letras e na política, deveram os seus triunfos à influência das lições do Barão. Muitos homens de talento procuravam a convivência do Barão de Tautphoeus, para, em simples conversas, resolverem dúvidas e, muitas vezes, aprenderem coisas que não sabiam. Todos os professores egrégios do Rio de Janeiro leram nos colégios de Tautphoeus, sendo chamado de “mestre dos mestres”. Na biografia de Rodrigues Alves , Cordeiro afirma que Tautphoeus havia sido não só seu professor de Grego e Alemão, mas também professor do próprio Imperador. 
 A abundância de ideias gerais, de sugestões, de matéria para reflexão em sua conversa, era notável. Segundo Nabuco, pode-se afirmar que, embora nunca tenha escrito, pelo menos no Brasil, Tautphoeus havia publicado um número maior de ensaios, de teses históricas e outras, do que todos os escritores daquela época juntos: unicamente suas contínuas edições tiradas a pequeno número de exemplares dissipavam-se como a palavra, quando não eram convertidas em trabalho alheio. 
Mas isso não lhe importava, pois era destituído de ambições. Tendo que ganhar a vida no Brasil por meio de lições, enterrou tudo que pudesse restar-lhe do passado, dos velhos preconceitos aristocráticos de seu país, das aspirações à elegância, à vida de prazer, ostentação e sucessos mundanos da sua mocidade em Paris. Tautphoeus assumiu as atribuições que lhe foram confiadas com simplicidade, como se as recebesse por herança, sem ressentimento, queixa ou murmúrio. Além da posição involuntariamente considerada subalterna, Nabuco destaca o amor de Tautphoeus pelo país. Do Barão partiu talvez o único grito de: “Viva a Constituição do Império!”, que se ouviu em 15 de novembro ao desfilar das tropas de Deodoro pela Rua do Ouvidor. Talvez alguém olhando para o velho que fazia sem medo tal protesto, pensasse que era um protegido do imperador alucinado pela catástrofe que o tragaria também. Não o era porém; ele não devia favores, nem gratidão; tudo que teve foi conquistado através de concursos, dos quais os competidores desistiam. 

É notável que Tautphoeus se sujeitava a concursos para obter cadeiras quando seu reconhecido saber lhe dava direito a mais justa das nomeações por decreto. Não era, conforme Nabuco, um despeitado, era o homem que melhor estudara a psicologia do nosso país e que mais se conformara a ela até aquele ato, que lhe pareceu nacionalmente fatídico. Segundo Gama Rosa (1911), além dos livros, as duas únicas paixões do Barão de Tautphoeus eram o Brasil e o Imperador. Quando desabou a monarquia, o Barão abismou-se em melancolia profunda. Dória (1890) narra fatos já mencionados por Nabuco (1963), ocorridos na manhã histórica de 15 de novembro de 1889, quando foi proclamada a República no Brasil. A tropa, comandada por Deodoro, desceu a Rua do Ouvidor rumo do Arsenal da Marinha. Na porta da Gazeta da Tarde, entre as ruas Uruguaiana e São Francisco, admirado como todos, estava parado o já idoso Barão deTautphoeus. Segundo Dória, o Barão perguntou o que ocorria, ouvindo a música, rumor de gente, correr de curiosos e quando lhe deram as notícias sobre o grande acontecimento do dia, empalideceu. Trêmulo, abalado, gritou aos batalhões que desfilavam silenciosos: “Viva a Constituição que nós juramos”. Deodoro, Benjamin e Quintino teriam reconhecido o Barão e ouviram o protesto.

"A história registrou uma voz solitária que se levantou naquele dia na Rua do Ouvidor para saudar o monarca: a do barão de Tautphoeus, professor de grego emigrado da Alemanha, que exclamara "Viva sua Majestade o imperador!", sem que ninguém o correspondesse" (DINIS, Edinha; Chiquinha Gonzaga: uma história de vida)

 O Barão era um apaixonado por nossa natureza. Desde que chegou ao Brasil tinha sido um explorador de suas belezas. Nos últimos tempos da vida de Tautphoeus encontravam refúgio e calmaria em Paquetá. Ele ia sempre aos sábados, ficava o domingo e, às vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos. Estava visivelmente se despedindo. Suas faculdades estavam intactas, mas as forças físicas estavam em declínio. O discípulo afirma que os últimos dias na companhia de Tautphoeus foram penetrantes e melancólicos. Melancolia, porém, dos momentos que quiseram tornar eternos. O seu prazer, muitas vezes, era sentar-se num banco à beira do mar e assistir a tarde. Quando passeavam na mata ao lado da casa e o caminho ia se abrindo, Tautphoeus pedia a Nabuco que não tocasse na natureza, que respeitasse o inesperado de tudo aquilo. Nesses passeios pela floresta, conversavam sobre religião. Nabuco admirava os monólogos do Barão.
 Pires de Almeida (1905), refere-se ao Barão como um “grande humanista”, afirma que a ele devia tudo que sabia e destaca a importância do Colégio Barão de Tautphoeus, tanto pelos raros méritos conquistados por ele, enquanto diretor, quanto pelo grande número de discípulos que preparou e que teve o privilégio de ver espalhados pelo país, ocupando posições e cargos elevados. Pires de Almeida também informa que o Barão aporta no Rio de Janeiro e exerce exclusivamente o magistério público e particular por cerca de 50 anos, sem escolha de disciplinas, até que, em 1851, associando-se ao não menos ilustre Joaquim José Lamprêia de Sá Camelo, tio paterno do então ministro português no Brasil, adquiriram o Colégio Curiacio, à Rua do Lavradio n. 53 D. 

Nos seus Colégios, quando era surpreendido de momento pela falta de professores, substituía-os ao menor impedimento.Entrava pela classe de inglês ou pela de história, de latim ou de geometria. Conta Pires de Almeida um fato característico, no qual uma inesperada lei, que incompatibilizava as funções de professor do Colégio Pedro II com as de diretor de colégio particular, levou o Barão de Tautphoeus a deixar vaga sua cadeira de grego. Um dispositivo legal posterior, porém, revogou esse artigo da lei e o Barão, qualificado por Pires de Almeida como “emérito pedagogo” resolveu disputar em concurso cinco cadeiras que estavam ocupadas em caráter interino, e nesse sentido, se inscreveu. Pires de Almeida encerra sua nota afirmando que o Barão obteve a primeira colocação em todas elas, deixando ao arbítrio do Imperador a preferência e designação da matéria a lecionar.

 No princípio de fevereiro de 1890 beirava os oitenta anos. O dia 9 de fevereiro teria sido um domingo alegre, de celebrações pelo batizado do seu neto Pandiá. No dia seguinte, partiu para Paquetá, hóspede querido da casa do Castello, onde sempre seu discípulo e amigo Joaquim Nabuco o visitava. Regressou a cabo de uma semana, fraco dos passos. Em 20 de fevereiro, o Barão havia colocado uma cadeira, no terreno de sua casa da Rua D. Bibiana, na Fábrica de Chitas. Ia ler, mas quando voltou para dentro de casa para buscar o livro e seu inseparável charuto; caiu dentro do pátio. Começaram os sofrimentos em decorrência do acidente e no dia 27 de fevereiro veio a falecer. Teria sido sepultado na necrópole de S. Francisco Xavier. Sobre sua lápide se lê somente o local e a data do seu nascimento e do seu óbito. Seus cabedais não foram sujeitos a litígios de foro, nem ânsias de herdeiros, pois, segundo Dória, o Barão deixava pouco mais de oitocentos mil réis na gaveta para as necessidades da família, para o seu enterro; seus livros, quase todos em alemão, teriam sido entregues ao Club Germânia. 
Segundo Nabuco (1963), duas coisas o feriam em Tautphoeus: que com toda sua ciência ele não escrevesse nada e que pudesse ser tão submissamente católico. Parece que o primeiro ponto também feria Silvio Romero. Declarando Tautphoeus o homem mais bondoso e ilustrado que conheceu, Silvio Romero, num artigo publicado em Juiz de Fora, afirma que certa vez alguém perguntara a Tautphoeus o porquê de não publicar livros, possuindo ele tão vasta ilustração, aferida com admiração geral. Entre baforadas do charuto, respondeu ter na mocidade escrito muito em jornais franceses e ingleses. Acrescentou: “Deixei-me disto, hoje considero todos os bons talentos que foram meus discípulos e ajudei a formar outros tantos livros de minha vida”.

Partindo de uma abordagem dos problemas da nossa antiga instrução, Dória (1939) afirma que no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, numerosos colégios ofereciam instrução. O Colégio Pedro II bacharelava em ciências e letras obtidas em curso de 7 anos; colégios particulares ensinavam humanidades sob rótulo de preparatórios. Alguns colégios particulares ganharam fama. Vários deste tipo foram fundados, pelo estrangeiro considerado de benemerência na pedagogia nacional, Tautphoeus. O Barão lecionou no topo do ensino secundário daquela época, ou seja, nas duas seções do Colégio Pedro II, Externato e Internato. Nesta instituição, subiu às cátedras de Alemão, Grego e História, com capacidade para ascender a todas as cadeiras no estabelecimento considerado padrão, modelo para o ensino secundário. 
Nas suas recordações sobre o antigo Internato do Colégio Pedro II, Clado Ribeiro de Lessa (COLÉGIO PEDRO II, 1944) ressalta as palavras de seu pai, quando dizia que o Barão de Tautphoeus era exigente, mas extremamente bondoso, e tratava paternalmente todos os estudantes por filho, isso nos poucos instantes em que retirava o charuto da boca. Professor, de alemão e de grego, tinha, porém, uma queda irresistível pela história universal, em que também era germanicamente erudito. Lessa mostra como os estudantes desenvolveram estratégias para evitar as aulas e os exames do Barão. Os estudantes que não se interessavam pelas línguas que o Barão ensinava tinham meios fáceis para evitar, principalmente, a arguição em que com todas as probabilidades se afundariam. Retiravam uma obra qualquer sobre história da biblioteca do Colégio e deixavam sobre a cátedra do mestre. Este chegava, dirigia-se ao seu lugar, via o livro, abria-o displicentemente e lia rigorosamente. E o tempo corria. Tautphoeus só era despertado pelo tinir da campainha que marcava o término da aula. Sobre a matéria do curso o mestre não tinha tempo de pronunciar uma única palavra. Outro meio de evitar as arguições era o de deixar escapar em conversa na presença do Barão qualquer frase de onde se pudesse depreender a falta de bases históricas para a então recente anexação da Alsácia e da Lorena pelo Império Alemão. 
Tautphoeus desandava numa eruditíssima dissertação, na qual, estudando o desenvolvimento do império germânico desde os tempos de Armínio e Varo, passava pelas partilhas territoriais que seguiram à morte de Luiz, o Piedoso, e atingia os então dias atuais, mostrando irrefutavelmente que essas duas províncias pertenciam de pleno direito, por motivos de ordem histórica, étnica e cultural à pátria de Bismarck... e dele. A prova se fazia, nunca, porém, com gasto de tempo inferior aos 55 minutos regimentais, e a aula de alemão ou de grego ficava no tinteiro. Lessa reafirma que além da mania da história, o Barão, tinha um fraco irresistível pelos charutos. Os alunos e colegas de magistério ofertavam-lhe caixas de havanos preciosos que o incorrigível fumante trocava nas tabacarias por sacos de mata-ratos. Não dava importância à qualidade; o que desejava era não necessitar de gastar muitos fósforos por dia, passando o fogo de um charuto para o seguinte. Fundou para seus estudantes um colégio na Rua do Lavradio em frente da Rua da Relação, estabelecimento transferido para Friburgo, onde Tautphoeus foi eleito vereador. Em 1863 teria aberto o terceiro colégio, de seu nome, no cais da Glória, no local, onde só haveria ruínas quando Dória publicou o artigo e onde funcionaram serviços da companhia ferroviária Leopoldina. Traspassado o Colégio Tauphoeus a terceiro, estava o educador a reger o quarto estabelecimento na Rua Pedro Américo. Cerca de um ano mais tarde, dirigia o quinto colégio na Rua Riachuelo, depois o sexto, de novo na Rua do Lavradio, em frente à Rua da Relação. O quinto colégio dirigido por Tautphoeus já era renomado no Rio de Janeiro. Foi o Colégio Marinho, fundado pelo Cônego José Antônio Marinho, um dos muitos sacerdotes transviados na política de cultos tão opostos aos do altar. Gama Rosa (1911) descreve Marinho como “celebre deputado liberal que tamanha influência exerceu nos meios políticos da época e na revolução mineira dos Luzias, em 1842”. O Antigo Colégio Marinho ocupava um prédio na Rua do Riachuelo esquina da Rua dos Inválidos. Dirigido por Tautphoeus era, segundo Gama Rosa, uma “espécie de Falanstério Fourier”, que acomodava mediante tabiques de madeira, em salas, saletas, quartos, desvãos e sótãos estudantes que viviam independentes, como em república aspecto revelador de que o Barão de Tautphoeus continuava a ser no Brasil o mesmo liberal de lutas germânicas e húngaras. Admitia gratuitamente quantos o desejavam, por simples pedido de alunos e conhecidos, e, verdadeiramente, nunca sabia ao certo o número e qualidade dos ocupantes do falanstério.

"Não havia completado oito anos quando a morte de dona Ana Rosa o obrigou, em 1857, a abandonar a privilegiada existência protegida de filho único e a juntar-se, na Corte, `a família de mais quatro irmãos, onde se sentia como um órfão. Um segundo trauma foi a decisão do pai, em 1859, de enviá-lo [Nabuco] como interno ao colégio em Friburgo dirigido pelo afamado professor bávaro, barão de Tautphoeus." (ABREU, Alzira Alves de; Dicionário histórico-biográfico da Primeira República (1889-1930))

 No falanstério, como em qualquer outro colégio dirigido pelo Barão, ninguém se afligia com a falta ocasional de lentes, o diretor estava pronto para substituição imediata. Dória (1890) sustenta que a perda de um conjunto de bens, de patrimônio ainda na França o trazia pobre ao Brasil. Diante da necessidade de sustentar sua família, abraçou o ensino e até o fim da sua vida. Abriu colégios em Friburgo e no Rio de Janeiro, e nunca fechou a porta a quem carecesse instruir-se. Quem podia pagar pagava; quem não podia ficava de graça. Dória afirma que essa era uma regra dos estabelecimentos de Tautphoeus, sejam nos fundados nas montanhas fluminenses ou na planície carioca, onde Dória destaca o da Rua Riachuelo, canto de Inválidos. Para Dória, nem Tautphoeus saberia dizer quantos teria educado e ressalta sua indiferença à gratidão, segundo ele uma característica daqueles que estão em posição de superioridade. Cita então, exemplos da generosidade do Barão. Conta que um dia, uma paupérrima viúva lhe trouxe um filho à presença, modestamente augusta. Julgava-o aproveitável, mas entendia que a falta de dinheiro dela o tornaria inútil. Tautphoeus acolheu mãe e filho, tranquilizou uma, encarreirou o outro. Este foi o caso do Dr. José Pereira Guimarães, nome que, segundo Dória, bastava citar na medicina brasileira. Dando mais do que recebia, Tautphoeus pensou na necessidade e fechou o colégio. Foi aberto então, o concurso no Colégio Pedro II. Inscreveu-se. Segundo Dória, teve discípulos por juízes. Durante o certame, quase sempre quem era examinado, parecia examinando. Continuou a educar como quando dirigira escolas. Discípulos de Tautphoeus, indagavam-se sobre a ausência de homenagens para um homem que havia feito tantas benfeitorias no campo da Instrução Pública. Até então Tautphoeus não possuía um busto, uma estátua, escolas tinham sido abertas, mas segundo seus discípulos, a elas eram dados os nomes de indivíduos que mal sabiam ler e nenhuma havia recebido o nome de Barão de Tautphoeus
Dominó Sobrinho (1890) publicou na coluna Pequenos Echos, o que chamou de “um echo triste” que, infelizmente, fecharia os já registrados. Nela, é anunciada a morte do Barão de Tautphoeus, o sábio professor, conhecido, estimado e respeitado. Dominó Sobrinho afirma que o Barão faleceu velho e pobre, mas digno e honrado. Destaca que Tautphoeus preferiu sempre viver modesto ao brilhantismo que as suas relações com altos personagens lhe podiam proporcionar.
Confirmamos, porém, que Pandiá participou de uma homenagem ao Barão, a inauguração do seu retrato, na Sala do Panteon do Internato, evento no qual proferiu um discurso. Nele, o bisneto do Barão se dirige a Fernando Raja Gabaglia, na época diretor do Externato do Colégio Pedro II, aos membros do Corpo Docente, à mocidade brasileira e demais presentes, para agradecer a tarefa que lhe cabia naquele momento, perante a Congregação do Colégio, instituição centenária e modelo da instrução secundária nacional. Pandiá (1944) revela gratidão por trazer à lembrança a figura “serena”, “humilde” e “bondosa” do Barão de Tautphoeus, nome que naquela altura já era desconhecido das novas gerações. Afirma que quis deixar passar os festejos do primeiro centenário do Colégio, para cumprir o desejo que há tanto tempo alimentava – de levar para o Colégio o retrato a óleo do Barão de Tautphoeus, que por tantos anos guardava como “uma relíquia sagrada”. O bisneto fez um breve histórico da trajetória do Barão, indagando-se sobre o que existia de escrito sobre sua vida. Remete então para alguns dos relatos já apresentados nesse artigo. Porém, Pandiá reforça a necessidade de investigar os arquivos das bibliotecas, pois quantos pareceres, teses de concurso, noticiários necrológicos, dentre outras fontes, para que se pudesse ter uma ideia do fecundo trabalho executado por Tautphoeus, de 1842 a 1889, em prol da educação nacional. Segundo Pandiá, os misteriosos motivos que teriam levado Tautphoeus a trocar a Baviera pelo Brasil não teriam sido contados nem mesmo aos amigos mais íntimos
O Barão chega ao Brasil depois de ser diplomado em ciências jurídicas e sociais em Munique e viajado pela Grécia, Itália, França e Inglaterra, na ânsia de tudo saber e pesquisar. Despreocupado do espírito de lucro, fundou colégios na capital, em Vassouras, Friburgo e Petrópolis. Pandiá o descreve como um educador germânico proficiente, paciente, esforçado e bondoso no trato diuturno e demorado com a mocidade escolar. Foi nomeado professor de alemão do Externato do Imperial Colégio Pedro II, em 2 de agosto de 1847, passando mais tarde a reger as cadeiras de Grego e de História, de 1852 a 1868. Em 1876, após brilhante concurso, é aprovado para o Internato como Catedrático de Alemão, posto que ocupava ao falecer em 27 de fevereiro de 1890, depois de mais de 33 anos de magistério oficial no Colégio. Foi examinador tanto de concursos para todas as matérias do ensino secundário, como nos realizados em repartições públicas. Era solicitado quase que diariamente por D. Pedro II, patrono do Colégio, para traduções de livros e jornais estrangeiros. Pandiá revela que tinha em seu lar o arquivo dessa grande correspondência mantida, havia quase meio século
Albuquerque (1996) menciona que Tautphoeus teria exercido o magistério durante 48 anos no Brasil, como uma possível influência favorável à cultura alemã, dentre seus entusiasmados discípulos. Sustenta ser razoável que o conhecimento de uma filosofia política (a de Clausewitz) dentre as elites brasileiras, antes da Guerra do Paraguai pode não apenas ter influenciado a condução daquele conflito, mas também penetrado no Brasil pela via de intelectuais alemães, como o referido professor. Outra hipótese que nos parece razoável sustentar é a de que Tautphoeus tenha sido um dos responsáveis no Brasil, pela penetração de ideais renovadores da pedagogia alemã. Fazemos referência aqui à vertente Alemã (Romantismo Alemão), que possui, dentre seus principais representantes Pestalozzi e Fröebel, este último considerado o inventor do Jardim de Infância (kindergarten). Esses autores defendem que a especificidade da criança, a sua psicologia seja levada em consideração nos processos de ensino e aprendizagem. São os criadores do Método Intuitivo, que enfatiza a intuição da criança e a capacidade de observação como elemento central desse processo. 
Bastos (2002) realizou um estudo sobre as Conferências Populares da Freguesia da Glória, realizadas entre 1873 e 1890 -, as quais permitiram uma fecunda discussão de ideias científicas e educacionais na cidade do Rio de Janeiro. As conferências públicas - pedagógicas, literárias ou populares -, realizadas entre 1873 e 1890, caracterizam-se pela reunião de pessoas interessadas em ouvir e/ou discutir temas da atualidade. Possuem caráter educativo e de vulgarização do conhecimento, com a intenção de difundir as luzes e as modernidades científicas. Delas participam professores ou outros intelectuais, figuras proeminentes da sociedade, que objetivam discutir diversas questões vinculadas à profissão, à educação e ao ensino. Reconhecidas como fator relevante para o progresso e melhoramento da instrução pública, tiveram por objeto de estudo tanto questões relativas à política educacional do período como questões relativas à escola - as matérias e os métodos de ensino. Segundo a autora, em 05/03/1874, o Barão de Tautphoeus ministrou uma conferência sobre “História da Economia Política e Relação desta Ciência com os Princípios da Moral e da Justiça”. No dia 26, do mesmo mês e ano, o Barão ministrou outra conferência, na qual continuou a defesa da tese apresentada na conferência anterior. Já no dia 16/04/1874, o Barão de Tautphoeus ministrou conferência abordando a temática da “Colonização”. A autora mostra que entre 1873-1883, o Barão havia ministrado 5 Conferências Populares da Freguesia da Glória. 
Nesse sentido, esta análise resultou numa visão particular e, portanto, parcial da vida do Barão, ainda que colabore com a historiografia, na medida em que proporcione um olhar a mais sobre sua trajetória e sobre a educação naquele contexto histórico. Investigar os esforços feitos em prol da Educação no Brasil, em períodos recuados e por intelectuais e professores como Tautphoeus, pode se configurar em contribuição relevante para o campo da história da educação, em especial para a história da profissão docente. 

http://www.scielo.br/pdf/heduc/v22n54/2236-3459-heduc-22-54-00318.pdf 
http://www.artnet.com/artists/josef-willibrord-josef-m%C3%A4hler/portrait-des-freiherrn-von-tautphoeus-im-habit-5UeorEMZ4qy2p6EjQRGGiA2
http://www.brasilalemanha.com.br/novo_site/noticia/500-anos-de-alemaes-no-brasil/3792
https://books.google.com.br/books?id=mMwJHub3b_IC&pg=PA153&lpg=PA153&dq=bar%C3%A3o+de+tautphoeus&source=bl&ots=6pmbNUYx92&sig=3isHMWKmhZeibTGeiKJrES4AKgU&hl=en&sa=X&ved=2ahUKEwj2_InPn-zfAhWCIZAKHSCzCeA4ChDoATAFegQIBBAB#v=onepage&q=bar%C3%A3o%20de%20tautphoeus&f=false
http://www.oguiadeitajuba.com.br/BFamilias/BFamilias_B/Bello.php

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